Quarta-feira, 8 de Julho de 2009

Indiferença, Letra de Rock, Silas Correa Leite





Letra de Rock

INDIFERENÇA

1
Ninguém quer saber a minha dor
Nem saber a amargura que estou passando
A minha solidão
A minha angustia
Ninguém quer saber, ninguém compreende

(Refrão)
Mas quando eu canto ou escrevo
Ficam todos assustados
Acham que eu sou louco
É melhor julgar do que pensar
O desconhecimento aumenta a falta de sensibilidade (BIS)

2
E quando eu for um vencedor
E quando eu chegar lá o que dirão
Foi o louco que deu certo
Teve sorte na vida
Ninguém quererá saber a história real
.............................................................

E se eu me perder de mim?
E se eu ficar louco realmente?
Minhas feridas, meus poemas
Minhas músicas eu canto mentalmente
Pois silencio sobre a insensibilidade das pessoas

Quem nos salvará de nós/
Até quando a indiferença?
E quando eu chegar lá
Quem estará vivo e limpo e digno, para me abraçar
E pedir perdão?

-0-

Silas Correa Leite
www.portas-lapsos.zip.net
E-mail: poesilas@terra.com.br

Domingo, 5 de Julho de 2009

Homenagem ao Poeta Rodrigo de Souza Leão, In Memoriam




Para Onde Vão os Poetas Quando Morrem Cedo

Para Rodrigo de Souza Leão, In Memoriam

“Começar o escrever era descrever/
Descrever era desmanchar o que está escrito/
O que estava à vista parado/
No pensamento, no jardim/
E reescrever, de outra forma/
Em outra fôrma/
O novo curso e rasgo./
Escrever é desespera e espera...”/

Armando Freitas Filho
In, Lar, Poemas, Companhia das Letras



Para onde vão os poetas quando morrem jovens?
Para uma Terra do Nunca muito além de Pasárgada?
Para uma Shangri-lá das esferas letrais
Um desmundo na órbita das sensibilidades apuradas?
Para uma cidade fantasmas de sígnicos humanos
Em que há uma toda nova preparação para um revisitar-se?

Para onde vão os poetas quando morrem cedo?
O que é cedo ou tarde para o macadame das almas literais
E o espírito dos atribulados no caos telúrico
Entre o esquizofrêmito de criar um novo céu e uma nova guelra
Porque a insatisfação generalizada reina e viça
Nas infovias efêmeras que disparam solidões em concreto
Tirando impurezas do teclado e rangendo o rancor além da rede?

Para onde vão os poetas quando piram letras
Ferindo-se para escreverem com sangue dívidas e dúvidas
Muito além das cantagonias urbanas e das saciedades liriais
Quando tudo é só um grito de horror e os sonhadores sofrem
Como zumbis numa sociedade bizarra de bezerros com chips
Mais os sem-nome, sem-terra, sem-teto, sem saída, sem amor?

Para onde vão os poetas que se escrevem em dolorosos banzos-blues
E disparam torpedos de uma geração-teflon entre placas-mães
Tentando recuperar estimas que são lágrimas a seco
Num Brasil Sociedade Anônima em que a cultura é nicho
De neomalditos, de excluidos da mídia, de sonhadores sem grife?
Porque escrever é resistir; é dar forma a uma não-formalidade
Como se cada um gritasse seu grito individual, solitário, feito um indigente
Que procurasse pólvora na poesia, fósforo na fé, carbono nas tintas íntimas
Tentando refazer o próprio mundo muito além das placas de captura
E onde a própria realização é morrer para dar-se a ouvir como um eco num abismo?

...............................................................................................................

Para onde vão os poetas quando jovens e quando e morrem cedo?
Talvez um silêncio explique a perda, o vazio, a dor de existir
Entre regras falsas, deturpações sociais, tristes vazios culturais
Porque a morte é um protesto, uma fuga, o mais triste poema que existe
E sendo a saudade a mais pura forma de amor que resiste também é
Um grito contra as dilacerações transformadas em linguagens contra a própria indiferença...

-0-

Silas Correa Leite, Itararé-SP
E-mail:
poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net
Autor de O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, Crônicas, no prelo, Giz Editorial, SP

Sábado, 27 de Junho de 2009

Michael Neverland Jackson (In Memoriam)





Poema (In Memoriam)

Michael “Neverland” Jackson

(Sampa 25.06.09)


“Você pode mudar o mundo/(Eu não
consigo sozinho)/Você pode tocar o
céu/(Vou precisar de ajuda)/Você é
o escolhido/(Vou precisar de um sinal)/
...E se todos chorassem hoje à noite?”

Cry (Michael Jackson/R. Kelly)




Michael Jackson era negro e queria ser branco (com sua cota ancestral de dor negra)
O que o vitimizou – como um estigma
Michael Jackson era pobre e queria ser rico (de posses infantis e desejos transversais)
O que o desconfigurou como um estorvo
Michael Jackson era homem e queria ser mulher (de alguma maneira que pudesse)
O que o adulterou - Narciso cego, Édipo manco
Michael Jackson queria ser judeu (mas era um Peter-Pan enjaulado em cantagonias)
O que o marcou como ser na identificação de.

Michael Jackson como um não-Ser num não-lugar
Cantava dançava compunha dirigia criava voava
Um quase preto homem-menina com desvios íntimos
Com fox-trot nos pés e nos quadris portentosos
E uma alma sempre criança mal-amadurecida
Na ultrajada inocência para fins midiáticos e lucrativos

Fugiu-se na música – as ousadas canções
Tinha ritmo frenético – em viagens sonoras
Sobreviveu feito ermitão – urbano entre brinquedos
O pop do alto ao chão – paranóia na vida-livro
Muito além dos píncaros da glória efêmera...

Agora não tem cor – Não há cor na morte
Agora não tem posses – Nada levamos daqui
Agora não tem sexo – A terra há de comer
Agora não tem vitiligo: pergunte ao pó

Para ter sua tão sonhada Neverland
Assim na terra como no céu em purgações
Cortaria os próprios pulsos com música
Melodia, harmonia, ritmo em vício-clip

Sem saber que do outro lado da vida-hollywood-presley
Não há hormônios - nem cirurgias
Não há espelhos – nem camarins

Talvez nalgum lugar entre o céu e o inferno da terra-mãe
Ele encontre finalmente paz – mas uma paz não humana
E então não tenha mais vergonha da cor
Não tenha nunca mais vergonha do rosto
Não tenha vergonha da origem ou do sexo

Porque seu espírito atribulado finalmente se refrigerará
Em estúdios muito além de suas tantas realidades paralelas
E dentro da morte – muito além do som do silêncio –
Ele novamente ensaiará os primeiros passos de si mesmo
Como num “Thriller”.

-0-

Silas Correa Leite – Santa Itararé das Letras, São Paulo, Brasil
E-mail:
poesilas@terra.com.br
Blogue premiado do uol:
www.portas-lapsos.zip.net
Autor de “O Homem Que Virou Cerveja”,
Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio,
Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador, Bahia, 2009, Giz Editorial, no prelo

Quinta-feira, 11 de Junho de 2009

Silas Correa Leite Premiado na Bahia, Livro O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio

Silas Correa Leite Autografando a primeira edição da Revista Infâmia Literária, no Spazio Pirandelo, Rua Augusta São Paulo, Foto de Ricardo Jordani



Prefácio do Futuro Livro O HOMEM QUE VIROU CERVEJA, de Silas Correa Leite, Prêmio Valdeck Almeida de Jesus 2009, Salvador, Bahia, Giz Editorial, SP, no prelo


Qualquer ideia que te agrade,
Por isso mesmo... é tua.
O autor nada mais fez que vestir a verdade
Que dentro em ti se achava inteiramente nua...


(Mario Quintana)


Por ocasião da divulgação de meu livro “Memorial do Inferno – A Saga da Família Almeida no Jardim do Éden”, tive a feliz ideia de organizar um concurso para a resenha crítico-literária da obra. Tal iniciativa, não nego, foi também uma forma de estabelecer contato imediato com eventuais tripulantes da “nave das Palavras”, já que insisto em explorar a órbita da Literatura. O prêmio oferecido ao autor da melhor resenha seria, obviamente, o direito à edição e publicação de um livro. E eis que me vi diante de textos fantásticos, que chegavam de toda parte do país. Já antes da avaliação final, uma resenha, em especial, saltou-me aos olhos. Muito mais que uma resenha, era uma demonstração autenticada do perfeito domínio de palavras e ideias. Estava diante de um ‘artífice das palavras’, não tive dúvidas. Seu autor: Silas Correa Leite. Muito merecidamente, o vencedor do concurso. Era inevitável.


Como é possível constatar, no breve resumo biográfico que acompanha esta obra, Silas Correa Leite, entre suas múltiplas atividades, é escritor premiado e reconhecido, nacional e internacionalmente, com poemas e contos que abrilhantam diversas antologias, jornais, revistas e espaços literários importantes, sobretudo na Internet.


Tão logo chegou até mim o ensaio de Silas sobre o “Memorial”, tratei de sair à caça de suas obras, de seus poemas, seus textos. E a cada um que descobria, mais fascinado ficava com a força semântica de sua escrita. Uma forma imoralmente fecunda e bela de fazer do verbo a representação da vida, em todos os seus vértices e estertores. Silas Correa Leite parecia já ter nascido pronto para o vertiginoso universo das letras. Não há leitor que passe indiferente por suas palavras, posso apostar.


Silas é autor dos livros “Porta-Lapsos”, “Ruínas e Iluminuras”, “Trilhas & Iluminuras”, “Os Picaretas do Brasil Real” (todos de poemas), “Campo de Trigo Com Corvos” (contos), e “Ele Está No Meio de Nós”, Romance Místico – E-book. Além de escritor, Silas é também um operário da vida, engajado em projetos e atividades de toda ordem - sempre tendo a ética e a responsabilidade por vertentes, registre-se. É o tempo que escapa. É o correr da vida, como bem assinala Guimarães Rosa: "O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem." E coragem é o que parece não faltar a Silas Correa Leite, ainda que falte o tempo.


Quis o acaso, porém, que o tempo fosse aqui abreviado e que, por meio de um concurso que promovi, este livro tomasse forma. Não preciso dizer do orgulho que sinto em ter sido, de certo modo, o agente viabilizador desse ‘parto’, que traz ao mundo “O Homem que Virou Cerveja”, uma coletânea de quinze crônicas com o poder de encantar e absorver, seja com o humor inteligente levado a sério - e, muitas vezes, extraído da dor, tal como leite extraído das pedras -, seja com a riqueza semântica e a propriedade de retratar cenas do cotidiano com a ‘profunda leveza’ das palavras precisas, seja com a capacidade de roubar um riso, tocar a emoção ou despertar a consciência crítica do leitor. E isto, face à pressa e aridez de nossos dias, já é, no mínimo, uma pequena vitória.


A todos, resta-me desejar uma boa leitura!


Valdeck Almeida de Jesus

Salvador Bahia

Quarta-feira, 27 de Maio de 2009

Romance A Mulher, o Homem e o Cão, de Nicodemos Sena




Artigo/Resenha Crítica


ROMANCE “A MULHER, O HOMEM E O CÃO”,
UMA ‘NEVERLAND’ NA HILÉIA AMAZÔNICA

Por Silas Correa Leite*

“Com o que não te digo/
Teço um enigma/
O que digo sempre/
Nega o evidente(...)

Inconfesso, Antonio Mariano
In, Guarda-Chuvas Esquecidos
Editora Lamparina


Para falar do novo livro do escritor paraense radicado em Taubaté-SP, Nicodemos Sena, “A Mulher, o Homem e o Cão” (Ed. LetraSelvagem, 2009, Coleção Gente Pobre, 152 pág.) não teria como não me reportar ao sucesso que foi a portentosa obra “A Espera do Nunca Mais” (Ed. Cejup, 1999), um caudaloso romance elogiado pela crítica, “que faz meio-termo entre ficção e realidade (...); alto estilo, demonstrando vigor e consciência estética(...)”, segundo Ronaldo Cagiano (in Opção Cultural). A amazônica como um todo, resgatada e retratada, do rural-agreste e ermo aos ‘anos de chumbo’ da ditadura militar (o escritor é um retratista de seu tempo e das amarguras de seu tempo?), no letral, literal, e lítero-culturamente sob todos os aspectos. “Uma aula de Amazônia (...)”, diz Oscar D’Ambrosio (in Caderno de Sábado, Jornal da Tarde).
Coloco pra mim, entre os dez melhores romances brasileiros, não necessariamente numa ordem linear, “Dom Casmurro” ( Machado de Assis), “Grande Sertão: Veredas” (Guimarães Rosa), “Vidas Secas” (Graciliano Ramos), “Incidente em Antares” (Érico Veríssimo), “Crônica de Uma Casa Assassinada” (Lúcio Cardoso), “Macunaíma” (Mário de Andrade), “O Cortiço” (Aluisio de Azevedo), “Dona Flor e seus Dois Maridos” (Jorge Amado), “O Cais da Sagração” (Josué Montello), e, entre todos os do Autran Dourado (que é ótimo em tudo o que escreve), o recente romance “A Mulher, o Homem e o Cão”, de Nicodemos Sena, certamente o maior romancista brasileiro contemporâneo, pouco pop e naturalmente muito cult, diga-se de passagem.
Como gosto de ler um livro de fio a pavio (e nas entre/linhas), como se comesse uma iguaria pelas beiradas, defeito-qualidade de um glutão de letras e gastronomias de quilate, já sondei a orelha de um dos maiores críticos brasileiros de todos os tempos, o Oscar D´Ambrósio, que aponta Nicodemos Sena como um grande contador de histórias com mitos que se cruzam com o mundo fantástico do autor, acordando o gigante adormecido da capacidade de raciocinar enquanto ser humano (picadeiro de dilemas, enigmas e desafios do verbo existir). Vá vendo. Quero dizer, vá lendo. Deguste.
Depois, o prefácio da doutora Christina Ramalho (UFRJ), que nomina a obra como um “... caleidoscópio com tantos significados próprios, metamorfoses sobrenaturais plurissignificativas (...).” A floresta invadindo a obra do autor, que deixou a Amazônia, mas a Amazônia não o deixou, ou seja: vai com ele por onde ele for, sendo ele, é ele, selva-metáfora, o homem em busca de si mesmo, na selva urbana exaurida, dentro de si, no escre-Viver. Por aí.
No posfácio, Dirce Lorimier Fernandes (doutora em História e da APCA), fala do rico mundo encantado de criação, mistérios e encantamentos na obra de Nicodemos Sena. A inutilidade da existência (por isso escrevemos, criamos, deixamos nosso documento-identidade em sons, palavras, símbolos, crenças, devaneios, enigmas e artes loucas?). O autor rasga o véu da alma-mente-espírito, e numa treva branca destila-se, o tudo sentir, o sobre/Viver. Eis o homem.
Por fim – antes de entrarmos nos ramos qualificados da obra propriamente dita – uma surpresa: Um pós-posfácio do próprio autor (Acerca de “A Mulher, o Homem e o Cão”), falando de seu solilóquio, monólogo interior, desconfianças; encerrando assim: “... basta dizer que a selva, onde vivem as personagens (e onde eu nasci), é, no livro (...) apenas a metáfora de todas as solidões terrenas”. Lindo.
O romance-livro realmente é de linda floração cultural e envergadura literária (qualidade técnico-editorial de primeira, capa de James Valdana, desenho de capa e miolo Olga Savary); de se pegar e não largar mais. Cativador na elegante fruição, entre subidas e descidas aos céus (todos os céus, não se sabendo se o céu – qualquer um – veio até Nicodemos ou ele é que foi até ele). Elogiado pela crítica especializada, esse autor paraense tem um jeito todo próprio de narrar, ir e vir nas orações, levar e trazer o leitor, cativando, encantando, sacudindo-o. Grande estilo.
Aqui e ali, um personagem (personagem?) meio malazártico, numa narrativa bem macunaímica, sua narrativa às vezes nos remetendo à literatura fantástica (personagens bizarros até), de um anarquista misterioso, estilo utópico, B. Traven (Chicago 1890, México 1969), que teve na sua obra, como pano de fundo, a floresta mexicana (“O Visitante Noturno” entre outra criações de relevo), ficando um triângulo de Nicodemos Sena entre Macário de B. Traven, Macondo (de Gabriel Garcia Marques, do qual Nicodemos carrega aqui e ali parecenças) e o “espaço” floresta amazônica no livro, um não-lugar, um lugar-nenhum-todo-lugar/qualquer lugar, ele mesmo, o autor, Nicodemos Sena impregnado de talento, criatividade e técnica densa de narrar com veias e variações, as propriedades e impropriedades de suas origens, raízes, matrizes, mãe(s)-Terra/rio. O fado do destino humano sujeito a incongruências mesmo... Será o impossível?
Sim, a nova obra do autor, “A Mulher, o Homem e o Cão”, tem o sígnico da relação homem-terra, homem-rio, homem-celestidades, homem-demônios (e fantasmas) da terra, rio (e céus?); triângulo com o macho, a fêmea e o sobrenatural. Paradoxalmente ao que o próprio autor diz no livro (pág.25), é na escreveção que os homens sensíveis se refugiam da loucura. A loucura é santa? “Deus usa os loucos para confundir os sábios?”.
Coisas visíveis e invisíveis se metamorfoseiam nas narrativas cativantes, só que o leitor tem que estar bem enlivrado, por assim dizer, para ir, aqui e ali, sacando inteiro e completo, recebendo outro novo inédito enfoque concomitante ou adjunto (histórias na história), a árvore-janela, o cão-passarinho, o homem-peixe, o Deus que não é deus, o enlevo, a catarse, o onírico, colheitas de mitos retraduzidos e retrazidos. E o autor diz na contação da recontação literária em graça de prosa poética:
“É esse, senhor, o efeito do espanto: o espírito esforça-se por estabelecer uma relação, uma ligação de causa e efeito, mas, achando-se impotente para consegui-lo, sofre uma espécie de paralisia momentânea, e, tão logo se recupera do assombro, sente crescer dentro dele gradualmente uma convicção que clareia a mente e impulsiona o corpo (...). –Roubaram-nos a alma, agora tudo está encantado!”
A mulher-porca, as canoas de serpentes, o rio margem e beira (loucura-lucidez), tudo ciciando devaneios, registros, despojos letrais, acercamento. O rio de nossa infância, nossa origem, anda conosco, viaja conosco, sofre vazamentos, seca, aflui, tem sua derrama espiritual? O domador de mentes o que é? Ladrão de mulher, diria o mote popular parafraseado de um ente de circo.
Livro de peso que tem névoas clarificadas. Que dá gosto ler. Que se passa daqui prali, num sem-pulo, de um tópico frasal para outro, levando e trazendo o leitor boquiaberto, seduzido sim, onde a voz ora é de um (uma), ora de outro (outra... criaturas...). O autor costurando o xale de sua áurea-aura-halo. Incompletudes. Desabandonos. Desespelhos.
Na alegria e na tristeza, na fome e na dor... como um casamento do autor com o dom, a sua terra, o seus rios (lacrimais), agonias, angústias, causos do arco da velha vêm inventariados, inverdades, não mentiras, o próprio ofício de criação com iluminuras de espectros, ressentimentos, passados, transcendências, travessias, veios, cisternas, corredeiras, jorros; palco iluminado para dar voz e vazão a seres e não-seres, num imaginário pra lá de espetacularmente rico, portentoso.
Aqui e ali, paráfrases bíblicas bem situadas (há um Deus), narrativas que lembram recorrências de um Jó bíblico negando-se a si mesmo sem negar o Criador, chuvas, nuvens, paragens, afogadilhos e afogados com lanternas, o repugnante e o sagracial, e entra no historial das contações com barulhanças e tristices, de Nero a Hitler, passando por Herodes, aqui e ali tentando um sentir imenso a partir de um nada sentir (o autor ficou doente depois de escrever o livro?... Mistério... Lenda...).
Os sobre-humanos estão nas páginas do livro, nas páginas de rostos-purgações, de restos-retalhos-retratações-partilhas (histórias do ouvi-dizer, ouvi-viver), ou na própria concepção magistral como um todo da obra?
Pois é: eis a obra, eis o autor, e, cá entre nós, eis uma tentativa de resenha crítica de quem se apaixonou pelo romance “A Mulher, O Homem e o Cão”.
Aliás, falando sério, qual dos três (entre tantos) personagens do tema-obra gostaria de escrever uma história assim?
Nunca se sabe o desfecho de uma fábula. Leia e deguste.


*Silas Correa Leite – Autor de Campo de Trigo Com Corvos, Contos, Editora Design, Finalista do Prêmio Telecom, Portugal. Teórico da Educação, Jornalista Comunitário, Conselheiro em Direitos Humanos (SP). E-mail:
poesilas@terra.com.br
www.portas-lapsos.zip.net – Blog premiado do UOL


BOX

Livro: “A Mulher, O Homem e o Cão”, Romance, Ficção, 2009, 152 pgs.
Editora Letra Selvagem, SP
Autor: Nicodemos Sena
Site da editora:
www.letraselvagem.com.br

E-mail do autor:
letraselvagem@letraselvagem.com.br

Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

Poema de Um Amor Transcendental





POEMA - Literatura Brasileira Contemporânea


Poema de Um Amor Transcendental


Por Silas Corrêa Leite -


Você não sabe que espécie sou eu.Você só pode ir até aqui.Daqui pra frente tenho que ir sozinho.É meu destino, minha sina, minha lei, meu dever.Você de um lado – Eu de outro.Como um muro de desapontamentos entre nós.Você só me teve por um tempo.Eu fui enriquecendo de seus defeitos para ficar mais forte e eterno, e fiquei mais forte e eterno.Você ficou com as minhas ótimas qualidades e isso é um estimável perigo.Não poderíamos mais ser Um e ser Outro.Venceu o meu e o seu prazo nessa combinação de ciclos.Agora você fica e eu retorno ao meu esconderijo sideral.Sem adeus. Não chore. Sem perdão. Não sofra. Sem ressentimentos. Seja você mesma como sempre foi até agora.Nós nunca lembraremos mais um do outroNem nas próximas vidas, nem mesmo no dia do julgamento.Procure apenas sobreviver com os motivos e instrumentos que eu especializei você.Eu estou rio.Eu estou árvore.Eu estou livre e sozinho como uma coifa.Vencemos a nós mesmos.Perdas e traumas. Lucros e danos. Pensagens e bravatas.Não há céu, não há inferno, só as duas faces de uma mesma moeda falsa.Nunca gostei de ver você se parecendo muito comigo.Você nunca se lembrará de nada.Eu nunca mais serei eu mesmo.Você ficou mais louca vivendo por muito tempo esse triste inverno pessoal meu.O encanto acabou.O amor é uma mentira.Os faróis estão quebrados.Garrafas com mensagens de pedidos de socorro se perdem num mar de sargaços.Vou ter que atravessar agora para o outro lado da vida.Nunca existimos.Isso é o amor depois que acaba.Isso é uma gravação.Tudo se destruirá depois que você aceitar sem seqüelas que tudo acabou e que errou na hora que jamais podia errar.Está consumado: pagamos o nosso preço bilateralmente.O sonho perdeu o prazo de validade.Não há peças de reposição.O sétimo elemento está chegando com o meu sétimo selo de verificação para passaporte de entrada num desjardim muito além dessa minha pobre invisibilidade mórbida.

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VERBETE BIOGRÁFICO

Silas Corrêa Leite - Educador, Jornalista, Poeta.
Crônica da Série “Amigos Para Sempre São Anjos de Luz”.
Site pessoal:
www.itarare.com.br/silas.htm
Romance ELE ESTÁ NO MEIO DE NÓS
no site
http://www.itarare.com.br/

E-mail: poesilas@terra.com.br

Sábado, 2 de Maio de 2009

Augusto Boal: Alma do Teatro





Augusto Boal - A Alma do Teatro, o Teatro na Alma


“Atores somos todos nós, e cidadão
não é aquele que vive em sociedade:
é aquele que a transforma”.

Augusto Boal (In Memoriam)



Escolhido pela ONU-Organização das Nações Unidas como O Embaixador Mundial do Teatro; indicado ao Prêmio Nobel da Paz pelo projeto de Teatro como Inclusão Humana, torturado nos bastidores da Canalha de 64 (ditadura militar incompetente, corrupta, violenta e senil), tendo que se exilar, viveu na Argentina, em Portugal e Paris, sempre trabalhando a inclusão cidadã na arte cênica, partindo do pressuposto de que todos os humanos são atores; todos devem sair da opressão da máquina social as vezes pouco ética e muitas vezes mesmo insana, visando buscarem assim a libertação que há na arte de representar propriamente dita. Um mito do melhor do teatro popular brasileiro, Augusto Boal nascido carioca, acabou, promovendo o Brasil, tornando-se por isso também um cidadão do mundo de quilate, baluarte dos oprimidos de todas as terras e urbanidades, ele mesmo bandeira dos excluídos sociais, postulando pela inclusão via arte cênica. Quer mais?

“Inventar outro mundo é possível”, disse Augusto Boal em Lisboa, completando: -“A invenção de outro mundo é possível, construído pelas mãos de todos em cena, no palco e na vida". Este era o desafio do dramaturgo brasileiro Augusto Boal na mensagem internacional que assinala o Dia Mundial do Teatro, completando, ainda: "Temos a obrigação de inventar outro mundo porque sabemos que outro mundo é possível. Mas cabe a nós construí-lo com nossas mãos entrando em cena, no palco e na vida" – Esse é o mote deixado pelo ensaísta e diretor de teatro brasileiro, fundador do Teatro do Oprimido e que especialistas consideram uma das grandes figuras do teatro moderno contemporâneo. Olhando o mundo "Além das aparências, vemos opressores e oprimidos em todas as sociedades, etnias, classes e castas; vemos o mundo injusto e cruel" disse ele, e concluiu: porque, afinal, de uma forma ou de outra, "Somos todos atores”.

Augusto Boal morreu na madrugada de sábado de 02 de maio de 2009, no Rio de Janeiro. Ele sofria de leucemia e estava internado na CTI do Hospital Samaritano. Augusto Boal também era ensaísta e teórico do teatro, ganhando destaque nos anos 1960 e 1970 quando esteve à frente do Teatro de Arena de São Paulo, quando fundou o Teatro do Oprimido, pelo qual foi internacionalmente reconhecido por aliar arte dramática à ação social.

Augusto Boal chegou a se formar em Química pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) em 1950, mas viajou em seguida para os Estados Unidos, onde estudou artes cênicas na Universidade de Columbia. De volta ao Brasil, sua primeira peça como diretor do Arena foi “Ratos e Homens”, de John Steinbeck, que lhe rendeu o prêmio de revelação da APCA (Associação Paulista dos Críticos de Arte). Dirigiu ainda, entre outras peças, “Eles Não Usam Black-Tie” de Gianfrancesco Guarnieri, e “Chapetuba Futebol Clube” de Oduvaldo Vianna Filho. Foi o diretor do espetáculo “Opinião”, com Zé Ketti, João do Vale, Maria Bethânia e depois Nara Leão, que passou para a história como um ato de resistência ao golpe militar de 1964.

O Teatro do Oprimido provou ser importante ferramenta para a conscientização de todos que o praticam. Essa era a ambição de Augusto Boal: que todos os seres humanos, sejam quais forem suas profissões, gêneros, etnias ou condições sociais, instrumentalizando conscientemente o teatro e todas as artes que trazem em si, para que se pudessem alcançar os princípios da Declaração Universal dos Direitos Humanos: “Que a Liberdade, a Justiça e a Paz tenham por base o reconhecimento da dignidade intrínseca e dos direitos iguais e inalienáveis de todos os membros da família humana(...)”.

Augusto Pinto Boal nasceu em 16 de março de 1931, na Penha, bairro da zona Norte do Rio. Suas técnicas e práticas foram espalhadas pelo mundo inteiro, principalmente nas três últimas décadas do século XX. Foram usadas não só por aqueles que entendem o teatro como instrumento de emancipação política, mas, e principalmente também nas áreas de educação, saúde mental e no próprio sistema prisional, tal a qualidade sócio-inclusiva das mesmas. Suas teorias sobre o teatro são estudadas até hoje nas principais escolas de teatro do mundo. O jornal inglês The Guardian, por exemplo, escreveu que "Boal reinventou o teatro político e é uma figura internacional tão importante quanto Brecht ou Stanislavski".

“O Ser Humano é Teatro”, dizia Augusto Boal. Teatro, Dança, Música, Circo, Balé, Literatura, Voz Populi, humanagente, pois. O Teatro de vanguarda de Augusto Boal incomodava, tocava no cerne de questões ético-humanistas (humanitárias), sendo ele um porta-voz da liberdade de criação, da liberdade que é inerente ao ser humano em pleno exercício de cidadania exercitada ao extremo. Sim, Augusto Boal era a alma do teatro. E o teatro era a alma dele. No palco da vida deixou seu brilho, e como o show tem sempre que continuar, ela ainda será cantado em verso e prosa por esse mundão da nova desordem econômica sub-humana, bem ao jeito de uma espécie assim de Brecht moreno-tropical.

Bravo Boal!

-0-

Silas Correa Leite, Itararé, SP
Jornalista Comunitário, Ficcionista Premiado, Conselheiro em Direitos Humanos (SP)
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Autor de “O Homem Que Virou Cerveja”, Livro de Crônicas Hilárias de Um Poeta Boêmio, Prêmio Valdeck Almeida de Jesus, Salvador, Bahia, no prelo, Giz Editorial
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(Um dos dez melhores blogs do UOL em 2008)